Abrindo o Olho do Dhamma

"...O Buda se iluminou no mundo, ele contemplou o mundo. Se ele não houvesse contemplado o mundo, se ele não houvesse visto o mundo, ele não poderia haver superado o mundo. A iluminação do Buda foi simplesmente o despertar deste mesmo mundo. O mundo estava ali mesmo: ganho e perda, elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza ainda estavam todas ali. Se não fossem por essas coisas não haveria nada do que se despertar..."

Muitos de nós começamos a praticar e mesmo após um ano ou dois, ainda não sabemos o que é o que. Ainda nos sentimos inseguros em relação à prática. Quando nos sentimos inseguros, não enxergamos que tudo à nossa volta é claramente o Dhamma, e dessa forma buscamos os ensinamentos dos Ajaans. Mas na verdade, quando conhecemos a nossa própria mente, quando temos sati para olhar de perto para a mente, existe a sabedoria. Todos os momentos e todas as situações se tornam ocasiões para ouvir o Dhamma.

Podemos aprender o Dhamma da natureza das árvores, por exemplo. Uma árvore nasce devido a causas e cresce seguindo o curso da natureza. Nisso, a árvore está nos ensinando o Dhamma, porém não o entendemos. No seu devido tempo, ela cresce até que brotos, flores e frutos apareçam. Tudo que vemos é a aparência das flores e frutos, somos incapazes de interiorizar e contemplar isso. Por isso não sabemos que a árvore está nos ensinando o Dhamma. O fruto aparece e nós simplesmente o comemos sem investigar: doce, azedo ou salgado, é a natureza da fruta. E esse Dhamma é o ensinamento da fruta. Dando seguimento, as folhas envelhecem. Elas ficam murchas, morrem e depois caem das árvores. Tudo que vemos é que as folhas caíram. Nós pisamos nelas, varremo-las e isso é tudo. Nós não investigamos a fundo, por isso não sabemos que a natureza está-nos ensinando. Mais tarde, as novas folhas brotam e nós vemos somente isso, sem levar o assunto mais adiante. Nós não trazemos essas coisas para dentro das nossas mentes para contemplá-las.

Se pudermos trazer tudo isso para dentro e investigar, veremos que o nascimento de uma árvore e o nosso próprio nascimento não têm diferença. Este nosso corpo nasce e existe dependendo de condições, dos elementos terra, água, ar e fogo. Tendo a sua comida, ele crescerá e crescerá. Todas as partes do corpo mudam e fluem de acordo com a sua natureza. Não existe diferença em relação à árvore; cabelo, unhas, dentes e pele - tudo muda. Se entendermos as coisas da natureza, então entenderemos a nós mesmos.

As pessoas nascem. Ao final elas morrem. Tendo morrido elas nascem novamente. Unhas, dentes e pele constantemente morrem e crescem outra vez. Se entendermos a prática então veremos que uma árvore não é diferente de nós. Se entendermos os ensinamentos dos Ajaans, então nos daremos conta de que o exterior e o interior são comparáveis. As coisas que possuem consciência e aquelas sem consciência não são diferentes. Elas são iguais. E se entendermos essa identidade, então quando vemos a natureza de uma árvore por exemplo, saberemos que não existe diferença em relação aos nossos cinco khandhas [12] -- corpo, sensação, percepção, formações mentais e consciência. Se entendemos isso então entendemos o Dhamma. Se entendemos o Dhamma entendemos os cinco khandhas e como eles se movem e mudam constantemente, sem nunca parar.

Portanto quer seja em pé, caminhando, sentados ou deitados, nós deveríamos ter sati para vigiar e cuidar da mente. Quando vemos as coisas externas é como se víssemos as coisas internas. Quando vemos as coisas internas é como se víssemos as coisas externas. Se compreendermos isso então poderemos ouvir o ensinamento do Buda. Se compreendermos isso, então poderemos dizer que a qualidade do Buda, 'aquela que sabe', foi estabelecida Ela conhece o externo. Ela conhece o interno. Conhece todas as coisas que surgem. Entendendo dessa forma, então sentados ao pé de uma árvore ouviremos os ensinamentos do Buda. Em pé, caminhando, sentados ou deitados, ouviremos os ensinamentos do Buda. Vendo, ouvindo, cheirando, saboreando, tocando e pensando, ouviremos os ensinamentos do Buda. O Buda é somente isso 'aquele que sabe' dentro dessa nossa mente. Ele conhece o Dhamma, investiga o Dhamma. A qualidade do Buda, 'aquela que sabe', surge, a mente se torna iluminada.

Se estabelecermos o Buda dentro da nossa mente então veremos tudo, contemplaremos tudo, como não sendo diferente de nós mesmos. Veremos vários animais, árvores, montanhas e plantas como não sendo diferentes de nós mesmos. Veremos pessoas pobres e ricas - elas não são diferentes! Elas possuemm toodas as mesmas características. Quem compreende isto, estará satisfeito em qualquer lugar. Ele ouve os ensinamentos do Buda em todos os momentos. Se não compreendermos isso, então mesmo que gastemos todo o nosso tempo ouvindo os ensinamentos dos vários Ajaans, ainda assim não compreenderemos o significado deles.

O Buda disse que a iluminação do Dhamma é somente conhecer a Natureza, [13] a realidade que nos cerca, a Natureza que está exatamente aqui! Se não entendermos essa Natureza experimentaremos decepções e alegrias, estaremos perdidos em humores, fazendo surgir a tristeza e o remorso. Estar perdido em objetos mentais é estar perdido na Natureza. Quando nos perdemos na Natureza então não entendemos o Dhamma. O iluminado apenas apontou essa Natureza.

Tendo surgido, todas as coisas mudam e morrem. As coisas que fazemos, tal como pratos, tigelas e vasilhas, todas possuem a mesma característica. Uma tigela é moldada devido a uma causa, o impulso do homem em criar e na medida em que a usamos, ela fica velha, se quebra e desaparece. Árvores, montanhas e plantas são o mesmo, até os animais e pessoas.

Quando Añña Kondañña, o primeiro discípulo, ouviu o ensinamento do Buda pela primeira vez, a compreensão que ele alcançou não foi algo complicado. Ele simplesmente viu que tudo aquilo que nasce está sujeito à mudança e ao envelhecimento como uma condição natural e no final das contas terá que morrer. Añña Kondañña nunca havia pensado nisso antes, ou se havia não estava completamente claro, dessa forma ele não havia ainda se soltado, ele ainda estava agarrado aos khandhas. Estando sentado, com atenção plena, ouvindo o discurso do Buda, a qualidade do Buda surgiu nele. Ele recebeu uma espécie de "transmissão" do Dhamma que era o conhecimento de que todas as coisas condicionadas são impermanentes. Tudo aquilo que nasce tem que ter o envelhecimento e a morte como resultado natural.

Essa sensação era diferente de tudo aquilo que ele havia conhecido antes. Ele realmente entendeu a sua mente e assim o "Buda" surgiu dentro dele. Naquela ocasião o Buda declarou que Añña Kondañña havia recebido o Olho do Dhamma.

E o que é que esse Olho do Dhamma vê? Esse Olho vê que tudo que nasce tem o envelhecimento e a morte como resultado natural. "Tudo que nasce" significa tudo mesmo! Quer seja material ou imaterial, tudo se encaixa no termo "tudo que nasce". Se refere a toda a Natureza. Como este corpo por exemplo - nasce e depois prossegue até a extinção. Quando é pequeno, "morre" da infância para a juventude. Após um tempo ele "morre" da juventude e se transforma na meia idade. Então prossegue para "morrer” da meia idade e alcançar a velhice, finalmente chegando ao fim. Árvores, montanhas e plantas todos têm essa característica.

Portanto a visão ou entendimento 'daquele que sabe' claramente entraram na mente de Añña Kondañña enquanto ele estava ali sentado. Esse conhecimento de "tudo que nasce" ficou profundamente cravado na sua mente, permitindo que ele desenraizasse o apego ao corpo. Esse apego era sakkayaditthi. Isso significa que ele não tomou o corpo como sendo um eu ou um ser, ou em termos de "ele" ou "eu". Ele não se apegou ao corpo. Ele o viu com clareza e dessa forma desenraizou sakkayaditthi.

E vicikiccha (dúvida) foi destruída. Tendo desenraizado o apego pelo corpo ele não duvidou do seu entendimento. Silabbata paramasa [14] também foi desenraizado. A sua prática se tornou firme e segura. Mesmo se o seu corpo estivesse com dores ou febre ele não se agarraria a ele, ele não tinha dúvida. Ele não teria dúvida porque havia desenraizado o apego. Esse agarrar-se ao corpo é chamado de silabbata paramasa. Quando alguém desenraiza essa idéia de que o corpo é o eu, o agarramento e a dúvida terminam. Se essa idéia do corpo como o eu apenas surgir na mente, então o agarramento e a dúvida têm início exatamente ali.

Portanto enquanto o Buda explicava o Dhamma, Añña Kondañña abriu o Olho do Dhamma. Esse Olho é exatamente "Aquele que vê com clareza". Ele vê as coisas de uma maneira diferente. Ele vê a Natureza. Ao ver a Natureza com clareza, o apego é desenraizado e 'Aquele que sabe' nasce. Antes ele sabia mas ainda tinha apego. Você poderia dizer que ele conhecia o Dhamma mas que ainda não o havia visto, ou que ele havia visto o Dhamma mas que ainda não estava integrado com ele.

No momento em que o Buda disse, "Kondañña sabe." O que ele sabia? Ele sabia apenas sobre a Natureza! Usualmente nos perdemos na Natureza, tal como com este nosso corpo. Terra, água, fogo e ar se juntam para constituir este corpo. É um aspecto da Natureza, um objeto material que podemos ver com o olho. Ele existe na dependência da comida, cresce e muda até que finalmente chegue à extinção.

Vindo para o interior, aquilo que vigia o corpo é a consciência - apenas 'Aquela que sabe', uma consciência única. Se vem através do ouvido ela é chamada, ouvir; se através do nariz é chamada, cheirar; se através da língua, saborear; se através do corpo, tocar; e através da mente, pensar. Essa consciência é uma só mas quando ela atua em diferentes lugares lhe damos nomes distintos. Através do olho damos um nome, através do ouvido outro. Mas quer atue no olho, nariz, língua, corpo ou mente é somente uma consciência. De acordo com as escrituras elas são chamadas de as seis consciências mas na realidade existe uma só consciência que surge nessas seis bases diferentes. Existem essas seis "portas" mas uma única consciência. Que é exatamente a mente.

A mente é capaz de entender a verdade da Natureza. Se a mente ainda tiver obstruções, então dizemos que ela sabe através da ignorância. Ela entende incorretamente e vê incorretamente. Entender incorretamente e ver incorretamente ou entender e ver corretamente é apenas uma única consciência. Falamos em entendimento incorreto e entendimento correto mas é uma coisa só. Correto e incorreto surgem deste único lugar. Quando existe o entendimento incorreto dizemos que a ignorância oculta a verdade. Quando existe o conhecimento incorreto existe o entendimento incorreto, pensamento incorreto, ação incorreta, modo de vida incorreto - tudo está incorreto! E por outro lado, o caminho da prática correta nasce nesse mesmo lugar. Quando o correto existe então o incorreto desaparece.

O Buda praticou suportando muitas dificuldades e torturando-se com o jejum e assim por diante, mas ele investigou a sua mente profundamente até que finalmente ele desenraizou a ignorância. Todos os Budas possuem a mente iluminada, porque o corpo nada sabe. Você pode alimentá-lo ou não, não faz diferença, ele pode morrer a qualquer momento. Todos os Budas praticavam com a mente. Eles tinham a mente iluminada.

O Buda, tendo contemplado a sua mente, abandonou os extremos da prática - entregar-se ao prazer e entregar-se à dor - e no seu primeiro discurso expôs o Caminho do Meio entre esses dois. Mas nós ouvimos o seu ensinamento e ele fere os nossos desejos. Nós estamos encantados com o prazer e o conforto, encantados com a felicidade, pensamos que estamos bem, estamos excelentes - isso é entregar-se ao prazer. Não é o caminho correto. Descontentamento, desprazer, antipatia e raiva - isso é entregar-se à dor. Esses são os extremos que alguém que está no caminho da prática deve evitar.

Esses "caminhos" são simplesmente a felicidade e a infelicidade que surgem. Aquela "que está no caminho" é esta mente, 'aquela que sabe'. Se um humor bom surge nos agarramos a ele como bom, isso é entregar-se ao prazer. Se um humor desagradável surge nos agarramos a ele através do desprazer - isso é entregar-se à dor. Esses são os caminhos incorretos, eles não são os caminhos de um meditador. Eles são os caminhos de um mundano, aquele que busca a diversão e a felicidade e que evita o desagrado e o sofrimento.

O sábio conhece os caminhos incorretos mas ele os abandona, ele desiste deles. Ele não é afetado pelo prazer nem pelo desprazer, felicidade e infelicidade. Essas coisas surgem mas aqueles que sabem não se apegam a elas, eles se soltam delas e deixam-nas ser de acordo com a natureza delas. Esse é o entendimento correto. Quando alguém entende isso completamente, então existe a libertação. A felicidade e a infelicidade não têm qualquer significado para um Iluminado.

O Buda disse que os Iluminados estão muito afastados das contaminações. Isso não significa que eles fogem das contaminações, eles não correm para nenhum lugar. As contaminações estão ali. Ele as comparou a uma folha de lótus em um lago. A folha e a água existem juntas, elas estão em contato, mas a folha não fica úmida. A água é tal como as contaminações e a folha de lótus é a Mente Iluminada.

Com a mente daquele que pratica ocorre o mesmo; ela não sai correndo para nenhum lugar, ela fica exatamente no lugar. O bem, o mal, a felicidade e a infelicidade, o correto e o incorreto surgem e ele os conhece a todos. O meditador simplesmente os conhece, eles não entram na sua mente. Isto é, ele não possui apego. Ele é simplesmente aquele que experiencia. Dizer que ele simplesmente experiencia é utilizar a nossa linguagem comum. Na linguagem do Dhamma dizemos que ele deixa que a sua mente siga o Caminho do Meio.

Essas ações de felicidade, infelicidade e assim por diante surgem constantemente porque elas são características do mundo. O Buda se iluminou no mundo, ele contemplou o mundo. Se ele não tivesse contemplado o mundo, se ele não tivesse visto o mundo, ele não poderia tê-lo superado. A iluminação do Buda foi simplesmente a iluminação deste mundo. O mundo ainda estava ali: ganho e perda, elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza ainda ali estavam. Se não fossem por essas coisas não haveria nada do que se iluminar! O que ele conhecia era apenas o mundo, aquilo que cerca os corações das pessoas. Se as pessoas seguem essas coisas, buscando o elogio e a fama, ganho e alegria e tentam evitar os seus opostos, elas afundam sob o peso do mundo.

Ganho e perda, elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza - isso é o mundo. A pessoa que está perdida no mundo não tem por onde escapar, o mundo a subjuga. Esse mundo segue a Lei do Dhamma portanto o chamamos de dhamma mundano. Aquele que vive no dhamma mundano é chamado de um ser mundano. Ele vive cercado pela confusão.

Portanto, o Buda nos ensinou a desenvolver o caminho. Podemos dividi-lo em virtude, concentração e sabedoria - desenvolvam-no até a sua finalização! Esse é o caminho da prática que destrói o mundo. Onde está o mundo? Está justamente nas mentes dos seres que estão encantados com ele! A ação de apegar-se ao elogio, ganho, fama, alegria e tristeza é chamada o "mundo". Quando isso está lá na mente, então o mundo surge, o ser mundano nasce. O mundo nasce devido ao desejo. Desejo é o lugar de nascimento de todos os mundos. Dar um fim ao desejo é dar um fim ao mundo.

A nossa prática de virtude, concentração e sabedoria é chamada de Caminho Óctuplo. Esse Caminho Óctuplo e os oito dhammas mundanos são um par. Como é que eles são um par? Se falamos de acordo com as escrituras, dizemos que o ganho e a perda, elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza são os oito dhammas mundanos. Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta, esse é o Caminho Óctuplo. Esses dois caminhos óctuplos existem no mesmo lugar. Os oito dhammas mundanos estão exatamente aqui nesta mente, com 'Aquele que sabe' mas esse 'Aquele que sabe' tem obstruções e dessa forma sabe da forma incorreta e assim se torna o mundo. É exatamente este 'Aquele que sabe', nenhum outro! A qualidade do Buda ainda não surgiu nessa mente, ela ainda não se retirou do mundo. Uma mente assim é o mundo.

Quando praticamos o caminho, quando treinamos nosso corpo e linguagem, tudo ocorre nessa mesma mente. É o mesmo lugar, portanto eles vêem um ao outro, o caminho vê o mundo. Se praticarmos com essa nossa mente, encontraremos esse apego ao elogio, fama, ganho e alegria, vemos o apego ao mundo.

O Buda disse, "Vocês devem conhecer o mundo. Ele fascina como uma carruagem real. Os tolos se hipnotizam mas os sábios não se deixam enganar." Não que ele quisesse que fossemos pelo mundo olhando para tudo, estudando tudo a seu respeito. Ele simplesmente queria que observássemos esta mente que está apegada ao mundo. Quando o Buda nos disse para olharmos para o mundo ele não queria que ficássemos presos nele, ele queria que nós o investigássemos, porque o mundo nasce exatamente nesta mente. Sentado à sombra de uma árvore você pode olhar para o mundo. Quando existe desejo o mundo passa a existir exatamente ali. No querer é onde o mundo nasce. Extinguir o querer é extinguir o mundo.

Quando sentamos em meditação nós queremos que a mente fique tranqüila, mas ela não fica. Porque acontece isso? Nós não queremos pensar e no entanto pensamos. Tal como uma pessoa que se senta sobre um formigueiro: as formigas a picarão o tempo todo. Quando a mente é o mundo, então mesmo sentados quietos com os nossos olhos cerrados, tudo que vemos é o mundo. Prazer, tristeza, ansiedade, confusão - tudo surge. Porque isso? É porque nóss aiinda não realizamos o Dhamma. Se a mente é assim, o meditador não consegue tolerar os dhammas mundanos, ele não os investiga. É como se ele estivesse sentado sobre um formigueiro. As formigas irão mordê-lo porque ele está na casa delas! Portanto o que ele deve fazer? Ele deve procurar algum veneno ou usar o fogo para expulsá-las.

Mas a maioria dos praticantes do Dhamma não vê dessa forma. Se eles se sentem satisfeitos eles simplesmente seguem essa satisfação, sentindo-se insatisfeitos eles seguem isso. Ao seguir os dhammas mundanos a mente se torna o mundo. Às vezes podemos pensar, "Ah, eu não consigo fazer isso, está além da minha capacidade...", então, nós nem mesmo tentamos! Isso porque a mente está cheia de contaminações, os dhammas mundanos não permitem que o caminho surja. Não conseguimos continuar o desenvolvimento da virtude, concentração e sabedoria. Tal como a pessoa sentada sobre o formigueiro. Ela não pode fazer nada, as formigas a estão mordendo e tomando todo o seu corpo, ela está imersa na confusão e agitação. Ela não consegue eliminar o perigo do lugar em que está sentada, assim ela simplesmente se deixa ficar ali sentada, sofrendo.

Assim é a nossa prática. Os dhammas mundanos existem nas mentes dos seres mundanos. Quando esses seres desejam encontrar a paz os dhammas mundanos surgem. Quando a mente é ignorante existe somente a escuridão. Quando o conhecimento surge a mente é iluminada, porque a ignorância e o conhecimento surgem no mesmo lugar. Quando a ignorância surge, o conhecimento não consegue entrar, porque a mente aceitou a ignorância. Quando o conhecimento surge, a ignorância não pode permanecer.

Deste modo, o Buda exortou os seus discípulos a praticarem com a mente, porque o mundo nasce nesta mente, os oito dhammas mundanos estão ali. O Caminho Óctuplo, isto é, a investigação através da meditação da tranqüilidade e insight, o nosso esforço dedicado e a sabedoria que desenvolvemos, todas essas coisas afrouxam o agarramento ao mundo. Cobiça, aversão e delusão se tornam mais leves e sendo mais leves, nós os conheceremos como tal. Se experimentarmos a fama, o ganho, elogio, alegria ou tristeza, estaremos conscientes disso. Nós precisamos conhecer essas coisas antes que possamos transcender o mundo, porque o mundo está dentro de nós.

Quando nos livramos dessas coisas é o mesmo que sair de uma casa. Quando entramos numa casa que tipo de sensações temos? Sentimos que atravessamos a porta e entramos na casa. Quando saímos da casa sentimos que a deixamos e que estamos na clara luz do dia, não está mais escuro como estava lá dentro. A ação da mente ao entrar nos dhammas mundanos é a mesma que entrar na casa. A mente que destruiu os dhammas mundanos é igual àquela que saiu da casa.

Portanto, o praticante do Dhamma deve se tornar alguém que testemunha o Dhamma por si mesmo. Ele sabe por si mesmo se os dhammas mundanos foram embora ou não, se o caminho foi desenvolvido ou não. Quando o caminho foi bem desenvolvido ele purifica os dhammas mundanos. Ele se torna cada vez mais forte. O entendimento correto cresce enquanto que o entendimento incorreto diminui, até que finalmente o caminho destrói todas as impurezas - ou isso, ou as impurezas destruirão o caminho!

Entendimento correto e entendimento incorreto, só existem esses dois caminhos. O entendimento incorreto também possui os seus truques, vocês sabem, ele possui sabedoria - mas é uma sabedoria que está equivocada. O meditador que começa a desenvolver o caminho experimenta uma separação. No final, é como se ele fosse duas pessoas - uma no mundo e a outra no caminho. Elas se dividem, elas se separam. Sempre que ele estiver investigando haverá essa separação, e ela continua até que a mente atinja o insight, vipassana.

Ou talvez seja vipassanu! [15] Tentando estabelecer resultados benéficos através da nossa prática, vendo esses resultados, nos apegamos a eles. Esse tipo de apego surge porque queremos obter algo da prática. Isso é vipassanu, a sabedoria com as impurezas ( isto é, "sabedoria impura"). Algumas pessoas desenvolvem a bondade e se apegam a ela, elas desenvolvem a pureza e se apegam a isso, ou elas desenvolvem sabedoria e se apegam a ela. A ação de se apegar a essa bondade ou conhecimento é vipassanu, infiltrando-se na nossa prática.

Portanto, se você desenvolver vipassana, tenha cuidado! Fique atento com relação a vipassanu, porque elas são tão parecidas que às vezes você não consegue diferenciá-las. Mas com o entendimento correto podemos vê-las com clareza. Se for vipassanu o sofrimento irá surgir ocasionalmente. Se for realmente vipassana não há sofrimento. Há paz. Ambas a felicidade e a infelicidade são silenciadas. Isso você poderá ver por si mesmo.

Esta prática requer resistência. Algumas pessoas, quando praticam, não querem ser perturbadas por nada, elas não querem fricção. Mas a fricção é a mesma de antes. Precisamos tentar encontrar um fim para a fricção através da própria fricção! Portanto, se existe fricção na sua prática, então está tudo bem. Se não existe fricção, não está bem, você come e dorme quanto quiser. Sempre que você quer ir a algum lugar ou dizer algo você simplesmente segue os seus desejos. O ensinamento do Buda irrita. O supramundano vai contra o mundano. O entendimento correto se opõe ao entendimento incorreto, a pureza se opõe à impureza. O ensinamento irrita os nossos desejos.

Existe uma estória nas escrituras sobre o Buda, anterior à sua iluminação. Naquela ocasião, tendo recebido um prato de arroz com leite, ele o colocou para flutuar em uma correnteza e pensou o seguinte, "Se eu vou me iluminar, que esse prato flutue contra a correnteza". O prato flutuou contra a correnteza! Aquele prato era o entendimento correto do Buda, ou a natureza de Buda para a qual ele despertou. Ele não seguiu os desejos dos seres comuns. Ele flutuou contra a correnteza da sua mente, foi na direção contrária em todos os sentidos.

Hoje em dia, da mesma forma, os ensinamentos do Buda são opostos às nossas vontades. As pessoas querem se entregar ao desejo e à raiva, mas o Buda não as deixa. Elas querem ser deludidas, mas o Buda destrói a delusão. Portanto, a mente do Buda se opõe à mente dos seres mundanos. O mundo diz que o corpo é bonito, ele diz, não é bonito. Eles dizem que o corpo nos pertence, ele diz que não é assim. Eles dizem que o corpo é sólido, ele diz que não é. O entendimento correto está acima do mundo. Seres mundanos simplesmente seguem o fluxo das torrentes.

Continuando com a estória, quando o Buda se levantou de onde estava, ele recebeu oito punhados de capim de um brâmane. O significado verdadeiro disso é que os oito punhados de capim eram os oito dhammas mundanos - ganho e perda, elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza. O Buda, ao receber o capim, decidiu sentar-se sobre ele e entrar em samadhi. A ação de sentar-se sobre o capim foi em si samadhi, isto é, a sua mente estava acima dos dhammas mundanos, subjugando o mundo até que ele compreendesse o transcendente. Os dhammas mundanos se converteram em lixo, eles perderam todo significado. Ele estava sentado sobre o capim mas este não obstruiu a sua mente de nenhuma forma. Os vários maras vieram na tentativa de submetê-lo, mas ele simplesmente ficou ali sentado em samadhi, subjugando o mundo, até que finalmente ele se iluminou no Dhamma e derrotou Mara completamente. [16] Isto é, ele derrotou o mundo. Portanto a prática de desenvolvimento do caminho é aquela que anula as contaminações.

As pessoas nos dias de hoje possuem pouca fé. Tendo praticado por um ou dois anos elas querem chegar ao objetivo, e elas querem avançar rápido. Elas não consideram que o Buda, o nosso Mestre, havia deixado a sua casa fazia seis anos quando alcançou a iluminação. É por isso que temos a "libertação da dependência". [17] De acordo com as escrituras, um monge precisa ter pelo menos cinco retiros de chuvas[18] para que ele seja considerado capaz de viver por sua própria conta. Após esse período ele terá estudado e praticado o suficiente, ele possuirá conhecimento adequado, ele possuirá fé e a sua conduta será boa. Alguém que tenha praticado por cinco anos, eu digo que ele é competente. Mas ele precisa realmente praticar, não somente “andar” com os mantos durante cinco anos. Ele precisa realmente cuidar da prática, realmente fazê-lo!

Até que você complete os cinco retiros das chuvas você se pergunta, "O que é essa 'libertação da dependência' da qual o Buda falou?" Você realmente precisa praticar por cinco anos para então conhecer por você mesmo as qualidades às quais ele se referiu. Depois desse tempo você será competente, competente em relação à mente, alguém que tem certeza. No mínimo, após cinco estações das chuvas, a pessoa deve estar no primeiro nível da iluminação. Não são somente cinco estações das chuvas com o corpo mas cinco estações das chuvas com a mente também. Esse monge teme a crítica e tem a noção da vergonha e da modéstia. Ele não ousa agir de maneira incorreta quer seja na frente das pessoas ou escondido delas, quer seja à luz do dia ou no escuro. Porque não? Porque ele realizou o Buda, 'Aquele que sabe'. Ele toma refúgio no Buda, no Dhamma e na Sangha.

Para ter verdadeira confiança no Buda, no Dhamma e na Sangha precisamos ver o Buda. Qual o benefício de tomar o refúgio sem conhecer o Buda? Se ainda não conhecemos o Buda, o Dhamma e a Sangha, a nossa tomada de refúgio neles se torna um ato com o corpo e com a fala somente, a mente ainda não os compreendeu. Uma vez que a mente os tenha compreendido, saberemos como o Buda, o Dhamma e a Sangha são. Então poderemos realmente tomar refúgio neles, porque essas coisas surgem na nossa mente. Em qualquer lugar teremos o Buda, o Dhamma e a Sangha conosco.

Quem é assim não ousa cometer atos ruins. É por isso que dizemos que aquele que alcançou o primeiro estágio da iluminação não irá mais renascer nos estados miseráveis. A sua mente tem certeza, ele entrou na Correnteza, ele não tem dúvida. Se ele não alcançar a iluminação agora, certamente assim o fará em algum momento no futuro. Ele pode fazer algo incorreto mas não o bastante para enviá-lo ao Inferno, isto é, ele não regride para a prática de ações prejudiciais com o corpo e com a linguagem, ele é incapaz disso. Dessa forma dizemos que essa pessoa alcançou o Nascimento Nobre. Ela não será capaz de retornar. Isso é algo que vocês deveriam ver e conhecer por si mesmos nesta mesma vida.

Nos dias de hoje, aqueles que ainda têm dúvidas acerca da prática ouvem essas coisas e dizem, "Ah, como poderei fazer isso?" Às vezes nos sentimos felizes, às vezes preocupados, satisfeitos ou insatisfeitos. Por que razão? Porque não conhecemos o Dhamma. Qual Dhamma? Justamente o Dhamma da Natureza, a realidade que nos cerca, o corpo e a mente.

O Buda disse, "Não se apeguem aos cinco khandhas, soltem-se deles, abandonem esses cinco khandhas!" Porque não conseguimos soltá-los? Somente porque não os vemos ou conhecemos de forma completa. Nós os vemos como sendo nós mesmos, nós nos vemos nos khandhas. Felicidade e sofrimento, nós vemos a nós mesmos, nós nos vemos na felicidade e no sofrimento. Nós não conseguimos nos separar deles. Quando não conseguimos nos separar deles significa que não conseguimos ver o Dhamma, não conseguimos ver a Natureza.

Felicidade, infelicidade, alegria e tristeza - nenhum deles é nós, mas nós assumimos que sim. Essas coisas entram em contato conosco e nós vemos um pedaço de 'atta', ou eu. Onde existe o eu, você encontra a felicidade, infelicidade e tudo mais. Dessa forma, o Buda disse para destruir esse "pedaço" de eu, isto é, destruir sakkaya ditthi. Quando o atta (eu) é destruído, anatta (não-eu) naturalmente surge.

Nós assumimos que a Natureza somos nós e que nós somos a Natureza, portanto não conhecemos a Natureza de forma completa. Se ela é boa nós rimos com ela, se é ruim nós choramos por ela. Mas a Natureza é simplesmente sankharas. Como dizemos no cântico, Tesam vupasamo sukho -- pacificar os sankharas é a verdadeira felicidade. Como nós os pacificamos? Simplesmente, removemos o apego e vemos como eles realmente são.

Portanto, existe verdade neste mundo. Árvores, montanhas e plantas, todas vivem de acordo com a sua verdade, elas nascem e morrem de acordo com a sua natureza. Somente nós, as pessoas, é que não somos verdadeiros! Nós vemos isso, mas criamos uma grande confusão em torno disso, a Natureza é impassível, ela simplesmente é como é. Nós rimos, nós choramos, nós matamos, mas a Natureza permanece verdadeira, ela é a verdade. Não importa quão felizes ou tristes estejamos, este corpo simplesmente segue a sua própria natureza. Ele nasce, cresce e envelhece, mudando e envelhecendo o tempo todo. Ele segue a Natureza dessa forma. Todo aquele que considera que o corpo é o seu eu e o carrega consigo para todos os lugares, irá sofrer.

Portanto Añña Kondañña reconheceu esse "tudo que nasce" em tudo, quer seja material ou imaterial. A sua visão do mundo mudou. Ele viu a verdade. Quando levantou do seu assento, ele levou junto essa verdade. A atividade de nascimento e morte continuou e ele simplesmente olhava para elas. Felicidade e infelicidade surgiam e desapareciam e ele simplesmente as notava. A sua mente estava estável. Ele não mais se sujeitou aos estados miseráveis. Ele não ficou excessivamente satisfeito ou desnecessariamente preocupado por essas coisas. A sua mente estava firmemente estabelecida na atividade de contemplação.

Ali! Añña Kondañña recebeu o Olho do Dhamma. Ele viu a Natureza, que nós chamamos de sankharas, de acordo com a verdade. A sabedoria é aquilo que conhece a verdade dos sankharas. Essa é a mente que sabe e que vê o Dhamma, que capitulou.

Até que tenhamos visto o Dhamma necessitamos ter paciência e moderação. Precisamos ter resistência, nós precisamos renunciar! Nós precisamos cultivar a perseverança e a resistência. Porque precisamos cultivar a perseverança? Porque somos preguiçosos! Porque precisamos desenvolver a resistência? Porque nós não agüentamos! Assim é como é. Porém, quando já estamos estabelecidos na nossa prática, demos fim à preguiça, então não necessitamos da perseverança. Se já conhecemos a verdade acerca de todos os estados mentais, se não ficamos felizes ou infelizes por eles, não necessitamos empregar a resistência, porque a mente já é o dhamma. 'Aquele que sabe' viu o Dhamma, ele é o Dhamma.

Quando a mente é o Dhamma, ela pára. Ela alcançou a paz. Não existe mais a necessidade de fazer algo especial, porque a mente já é o Dhamma. O exterior é o Dhamma, o interior é o Dhamma. 'Aquele que sabe' é o Dhamma. Esse estado é o Dhamma e aquele que conhece esse estado é o Dhamma. É um só. Está livre.

Essa Natureza não é nascida, não envelhece ou adoece. Essa Natureza não morre. Essa Natureza não é nem feliz nem infeliz, nem grande ou pequena, nem pesada ou leve, nem curta ou comprida, nem preta ou branca. Não há nada que possa ser comparado a ela. Nenhuma convenção poderá alcançá-la. É por isso que dizemos que Nirvana não tem cor. Todas as cores são meras convenções. O estado que está além do mundo está além do alcance das convenções mundanas.

Portanto o Dhamma é aquilo que está além do mundo. É aquilo que cada pessoa deve ver por si própria. Está além da linguagem. Não pode ser colocado em palavras, podemos apenas falar de formas e meios para realizá-lo. A pessoa que o viu por si mesma, concluiu a sua tarefa.


Notas:

12. Khandhas. São os cinco "agregados" que compõem aquilo que denominamos "uma pessoa”. [Retorna]

13. Natureza neste caso se refere a todas as coisas, mentais e físicas, não somente árvores, animais, etc. [Retorna]

14. Silabbata paramasa tradicionalmente se traduz como apego a preceitos e rituais. Neste caso o Venerável Ajaan o conecta, juntamente com a dúvida, especificamente ao corpo. Essas três coisas, sakkayaditthi, vicikiccha e silabbata paramasa, são, nas escrituras, os três primeiros dos dez "grilhões", que são abandonados ao alcançar o primeiro vislumbre da Iluminação, conhecido como "Entrar na Correnteza". Com a iluminação completa todos dez grilhões são abandonados. [Retorna]

15. Isto é, vipassanupakkilesa -- as contaminações sutis que se originnam da prática de meditação. [Retorna]

16. Mara (o Sedutor), a personificação do mal no Budismo. Para o meditador é tudo aquilo que perturba a busca pela iluminação. [Retorna]

17. "Libertação da dependência," isto é, durante os primeiros cinco anos ele vive sob a orientação de um monge mais graduado. [Retorna]

18. "Retiro das Chuvas" refere-se ao retiro anual de três meses durante a estação das chuvas, através do qual os monges contam a sua idade. Dessa forma um monge com cinco retiros das chuvas foi ordenado faz cinco anos. [Retorna]



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