Sem morada

"...O caminho mundano é o do fazer as coisas por alguma razão, para obter algo em troca, mas no Budismo fazemos as coisas sem essa idéia do ganho. Se não queremos absolutamente nada, o que iremos ganhar? Não ganhamos nada! Tudo aquilo que você ganhar será apenas um motivo para o sofrimento, dessa forma nós praticamos para não ganhar nada... Simplesmente, fazemos a mente ficar tranqüila e isso é tudo!..."

Nós ouvimos algumas partes dos ensinamentos e não conseguimos compreendê-los realmente. Nós pensamos que eles não deveriam ser como são e por isso não os seguimos, mas na verdade há uma razão para todos os ensinamentos. Pode parecer que as coisas não deveriam ser dessa forma, mas elas são. Inicialmente eu nem mesmo acreditava na meditação sentada. Eu não conseguia ver qual o benefício que poderia haver em simplesmente ficar sentado com os olhos fechados. E a meditação andando…caminhe a partir desta árvore, faça a volta e regresse…"Porque me incomodo?" Eu pensava, "Qual a utilidade de todo esse caminhar?" Eu pensava dessa forma, mas na verdade a meditação andando e sentada são muito úteis.

As tendências de algumas pessoas é que as fazem preferir a meditação caminhando, outras preferem a meditação sentada, mas você não pode deixar nenhuma delas de lado. As escrituras falam nas quatro posturas: em pé, caminhando, sentado e deitado. Nós vivemos com essas quatro posturas. Podemos preferir uma à outra, mas precisamos usar as quatro.

Elas dizem que essas quatro posturas devem ser equilibradas, fazer com que a prática seja equilibrada em todas as posturas. Inicialmente eu não conseguia entender o que isso quer dizer, fazer com que sejam equilibradas. Talvez isso signifique que dormimos por duas horas, depois ficamos em pé por duas horas, depois caminhamos por duas horas…talvez seja isso? Eu tentei - mas não consegui, era impossível! Esse não era o significado de fazer com que as posturas fossem equilibradas. "Fazer as posturas equilibradas" se refere à mente, à nossa atenção. Isto é, fazer a sabedoria surgir na mente, iluminar a mente. Essa nossa sabedoria tem que estar presente em todas as posturas, nós precisamos saber ou compreender constantemente. Em pé, caminhando, sentado ou deitado, nós entendemos todos os estados mentais como impermanentes, insatisfatórios e não-eu. Dessa forma é possível fazer com que as posturas sejam equilibradas. Tanto faz se o gostar ou não gostar estejam presentes na mente, nós não nos esquecemos da nossa prática, estamos atentos.

Se nós focarmos nossa atenção na mente constantemente, então teremos a essência da prática. Quer experimentemos estados mentais que o mundo entende como bons ou ruins, nós não ficamos esquecidos, não nos perdemos no bom e no ruim. Nós permanecemos firmes. Fazer com que as posturas sejam estáveis, dessa forma é possível. Se tivermos estabilidade na nossa prática e formos elogiados, então será simplesmente elogio; se formos criticados, então será apenas crítica. Nós não ficamos excitados ou deprimidos com isso, permanecemos exatamente igual. Porque? Porque vemos o perigo em todas essas coisas, nós vemos o que elas causam. Nós estamos constantemente conscientes do perigo em ambos, no elogio e na crítica. Habitualmente, quando estamos de bom humor, a mente também está bem, nós vemos ambos como sendo a mesma coisa, se estamos de mal humor a mente também está mal e nós não gostamos disso. Assim é como são as coisas, essa é a prática desequilibrada.

Se tivermos equilíbrio apenas o suficiente para reconhecer os nossos humores, e saber que estamos nos apegando a eles, isso já é um avanço. Isto é, temos consciência, nós sabemos o que está acontecendo, mas ainda assim não conseguimos nos soltar. Nós vemos que estamos nos agarrando ao bom e ao mau e sabemos disso. Agarramo-nos ao bom e sabemos que essa ainda não é a prática correta, mas mesmo assim não podemos nos soltar. Isso já é 50% ou 70% da prática. Ainda não existe a libertação, mas nós sabemos que se pudéssemos nos soltar esse seria o caminho para a paz. Prosseguimos dessa forma, vendo com igualdade as conseqüências danosas de todos os nossos gostos e desgostos, dos elogios e críticas, continuamente. A mente, dessa forma, estará equilibrada não importa o que ocorra.

Mas as pessoas mundanas, quando acusadas ou criticadas, ficam realmente perturbadas. Se elas são elogiadas, ficam animadas, elas dizem que é bom e ficam realmente felizes por isso. Se soubermos a verdade acerca dos nossos vários humores, se soubermos as conseqüências de nos apegarmos ao elogio e à crítica, o perigo de nos apegarmos a qualquer coisa que seja, seremos mais suscetíveis aos nossos humores. Saberemos que se nos agarrarmos a eles realmente haverá sofrimento. Veremos esse sofrimento e veremos o nosso apego como a causa desse sofrimento. Começaremos a ver as conseqüências do apego e do agarramento àquilo que é bom e àquilo que é mau porque nós os compreendemos e já vimos o resultado – não trazem a verdadeira felicidade. Então, agora vamos procurar uma maneira de nos soltarmos.

Onde está esse "caminho para nos soltarmos"? No Budismo dizemos "Não se apegue a nada". Nunca paramos de ouvir esse "não se apegue a nada!" Isso significa segurar, mas sem se agarrar. Como esta lanterna. Nós pensamos, "O que é isto?" Então nós a pegamos, "Ah, é uma lanterna", então a colocamos de volta. Seguramos as coisas dessa forma. Se não quiséssemos absolutamente nada, o que poderíamos fazer? Não poderíamos fazer meditação andando ou qualquer outra coisa, portanto precisamos, primeiro, querer as coisas. É desejo sim, isso é verdade, que mais tarde conduzirá aos parami (virtudes ou perfeições). Tal como querer vir aqui por exemplo…o Venerável Jagaro [22] veio para visitar o Wat Pah Pong. Primeiro, ele precisou desejar vir. Se ele não tivesse sentido que desejava vir, ele não teria vindo. O mesmo ocorre com todas as pessoas, elas vêm aqui por causa do desejo. Mas quando o desejo surge não se apegue a ele! Dessa forma, você vem e depois você retorna…O que é isso? Nós pegamos, olhamos e vemos, "Ah, é uma lanterna", então colocamos de volta. A isto se chama querer mas sem se apegar, nós soltamos daquilo. Nós conhecemos e depois soltamos. Colocando de uma forma simplificada: "Conheça e depois solte". Permaneça olhando e soltando. "Isto, dizem que é bom; isto, dizem que não é bom"…conheça e depois solte. Bom e mau, conhecemos tudo isso, mas nós os soltamos. Nós não nos apegamos tolamente às coisas, nós as "queremos" com sabedoria. A prática nessa "postura" pode ser constante. Você precisa ser estável dessa forma. Faça com que a mente conheça tudo dessa forma, deixe que a sabedoria surja. Quando a mente possui sabedoria, o que mais há para buscar?

Precisamos refletir acerca do que estamos fazendo aqui. Qual a razão de estarmos vivendo aqui, pelo que estamos trabalhando? No mundo se trabalha por esta ou aquela recompensa, mas os monges ensinam algo um pouco mais profundo do que isso. O quer que façamos, nós não esperamos nada em troca. Trabalhamos sem esperar recompensas. As pessoas mundanas trabalham porque querem isto ou aquilo, porque elas querem um ou outro ganho, mas o Buda ensinou a trabalhar apenas pelo trabalho, não pedimos nada além disso. Se você faz alguma coisa apenas para obter algo em retorno, isso irá causar sofrimento. Tente por você mesmo! Você quer tranqüilizar a sua mente e então você senta e tenta tranquilizá-la - você irá sofrer! Tente. O nosso caminho é mais refinado. Nós fazemos e depois soltamos; fazemos e soltamos.

Veja um brâmane que faz um sacrifício: ele possui um desejo na mente, por isso ele faz um sacrifício. Esses atos que ele pratica não irão ajudá-lo a transcender o sofrimento porque ele está agindo com base no desejo. No início, praticamos com algum desejo na mente; seguimos praticando mas não conseguimos alcançar o nosso desejo. Assim praticamos até que cheguemos a um ponto em que praticamos para não obter nada em troca, praticamos para poder nos soltar. Isso é algo que precisamos ver por nós mesmos, é muito profundo. Talvez pratiquemos porque queiramos alcançar Nibbana --e exatamente por isso, você não irá alcançar Nibbana! É natural que se queira a paz, mas não é verdadeiramente correto. Precisamos praticar sem desejar absolutamente nada. Se não desejarmos absolutamente nada, o que iremos obter? Não obteremos nada! Qualquer coisa que você obtenha é apenas causa de sofrimento, portanto nós praticamos para não obter nada.

Isso é exatamente o que chamamos de "esvaziar a mente". Ela está vazia mas ainda existe a ação. Esse vazio é algo que habitualmente as pessoas não entendem, mas aqueles que o compreendem vêm o valor de conhecê-lo. Não é o vazio de não ter nada, é o vazio das coisas que aqui estão. Tal como esta lanterna: deveríamos ver esta lanterna como vazia, por causa da lanterna existe o vazio. Não é o vazio em que não podemos ver nada, não é isso. As pessoas que assim o entendem, estão completamente enganadas. Você tem que compreender o vazio das coisas que aqui estão.

Aqueles que ainda estão praticando com a idéia de obter um ganho são como o brâmane que faz um sacrifício para satisfazer um desejo. Como as pessoas que vêm me ver para serem borrifadas com ‘água benta’. Quando eu lhes pergunto, "Porque vocês querem esta 'água benta'?" elas dizem, "queremos viver felizes e com conforto sem enfermidade". Aí está! Elas nunca irão transcender o sofrimento dessa forma. O caminho mundano é fazer as coisas por alguma razão, para obter algo em troca, mas no Budismo fazemos as coisas sem essa idéia de ganho. O mundo precisa entender as coisas em termos de causa e efeito, mas o Buda nos ensina a ir além da causa e além do efeito; ir além do nascimento e além da morte; ir além da felicidade e além do sofrimento. Pense a respeito disso…não existe onde ficar. Nós vivemos em um ‘lar’. Deixar esse lar e ir para onde não existe um lar…não sabemos como fazer isso, porque sempre vivemos com o vir a ser e com o apego. Se não podemos nos apegar, não sabemos o que fazer.

Assim, a maioria das pessoas não quer Nibbana, não existe nada lá; absolutamente nada. Olhe para o teto e o piso aqui. O extremo superior é o teto, essa é uma ‘moradia’. O extremo inferior é o piso, e essa é outra ‘moradia’. Mas no espaço vazio entre o piso e o teto não existe onde se sustentar. Um pessoa pode se sustentar no teto, ou no piso, mas não no espaço vazio. Onde não existe uma moradia, ali é onde está o vazio e, colocando de uma forma simples, dizemos que Nibbana é esse vazio. As pessoas ouvem isso e elas recuam um pouco, elas não querem isso. Elas temem que não verão os seus filhos ou parentes.

É por isso que quando abençoamos pessoas leigas, dizemos que "Que você tenha uma vida longa, beleza, felicidade e força". Isso faz com que elas fiquem realmente felizes, "Sadhu!" [23] elas todas dizem. Elas gostam dessas coisas. Se você começa a falar sobre o vazio elas não querem saber, elas estão apegadas à moradia. Mas você alguma vez viu uma pessoa bem velha com uma bela complexão? Você alguma vez viu uma pessoa bem velha com muita força ou muito feliz?…Não…Mas nós dizemos, "vida longa, beleza, felicidade e força" e elas ficam realmente satisfeitas, todas elas dizem "Sadhu!" Isso é o mesmo que o brâmane que faz oblações para obter o que quer. Na nossa prática nós não ‘fazemos oblações’, nós não praticamos para obter algo em retorno. Nós não queremos nada. Tranqüilize a sua mente, nada mais, e acabe com isso! Mas se eu falar assim, vocês não se sentirão muito confortáveis, porque vocês querem ‘nascer’ outra vez.

Portanto, todos vocês que são praticantes leigos deveriam se aproximar dos monges e observar a prática deles. Estar próximo dos monges significa estar próximo do Buda, estar próximo do Dhamma. O Buda disse, "Ananda, pratique muito, desenvolva a sua prática! Todos que vêem o Dhamma vêem a mim e todos que vêem a mim vêem o Dhamma". Onde está o Buda? Podemos pensar que o Buda aqui esteve e partiu, mas o Buda é o Dhamma, a verdade. Algumas pessoas gostam de dizer, "Ah, se eu tivesse nascido na época do Buda eu iria para Nibbana." Pessoa estúpidas falam desse modo. O Buda ainda está aqui. O Buda é a verdade. Independentemente de quem nasça ou morra, a verdade ainda estará aqui. A verdade nunca parte do mundo, está aqui todo o tempo. Quer um Buda nasça ou não, quer alguém saiba ou não, a verdade ainda estará aqui. Portanto devemos nos aproximar do Buda, devemos vir para dentro e encontrar o Dhamma. Ao encontrarmos o Dhamma encontraremos o Buda; vendo o Dhamma veremos o Buda e todas as dúvidas se dissolverão.

Colocando de uma maneira bem simples, é como o Mestre Choo. [24] Inicialmente ele não era um mestre, ele era apenas o Sr. Choo. Depois que ele estudou e passou todos os exames necessários ele se tornou um mestre, e se tornou conhecido como Mestre Choo. Como é que ele se tornou um mestre? Estudando as coisas que eram necessárias, dessa forma permitindo que o Sr. Choo se tornasse o Mestre Choo. Quando o Mestre Choo morrer, os estudos para se tornar um mestre irão permanecer e todos aqueles que estudarem se tornarão um mestre. Esse conjunto de estudos para se tornar um mestre não desaparece, tal como a Verdade, cujo conhecimento permitiu ao Buda tornar-se o Buda. Portanto o Buda ainda está aqui. Todo aquele que praticar e ver o Dhamma verá o Buda. Nos dias de hoje as pessoas estão todas equivocadas, elas não sabem onde está o Buda. Elas dizem, "Se eu tivesse nascido na época do Buda teria me tornado um discípulo dele e me iluminaria". Isso é tolice. Vocês deveriam entender isso.

Não pensem que ao final do retiro da estação das chuvas vocês irão regressar para a vida leiga. Não pensem assim! Em um instante um mau pensamento pode surgir na mente e vocês poderiam matar alguém. Da mesma forma, é necessário apenas uma fração de segundo para o bem brilhar na mente e vocês já estão nesse ponto. Não pensem que vocês precisam se ordenar por um longo período para serem capazes de meditar. A prática correta está naquele instante em que fazemos kamma. Em uma fração surge um pensamento ruim…antes que vocês se dêem conta cometeram algum kamma realmente pesado. E da mesma forma, todos os discípulos do Buda praticaram por muito tempo, mas o tempo necessário para se iluminar foi apenas um momento num pensamento. Portanto não sejam desatentos, mesmo nas menores coisas. Empenhem-se, tentem se aproximar dos monges, pensem seriamente sobre as coisas e então vocês entenderão os monges. Bem, acho que isso basta, não? Já está ficando tarde e algumas pessoas estão ficando sonolentas. O Buda disse para não ensinar o Dhamma para pessoas sonolentas.


Notas:

22. Venerável Jagaro, abade Australiano do Wat Pah Nanachat naquela época, que havia trazido o seu grupo de monges e pessoas leigas para ver Ajaan Chah. [Retorna]

23. Sadhu é a palavra em Pali que tradicionalmente se usa para reconhecer uma bênção, ensinamento do dhamma, etc. Ela significa "muito bem." [Retorna]

24. Na Tailândia a palavra "Mestre" é usada como um título, tanto quanto "Doutor" é usado no Português. "Mestre Choo" é um dos quatro anciões, residentes locais, que vieram passar o retiro das chuvas no Wat Pah Nanachat, para quem a última parte deste discurso está dirigida. [Retorna]



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